Tuesday, April 1, 2008
Sobre vício, vida e chulé!
Estou com um vício devasso. Esse entorpecente de palavras. Essa angústia que expulsa de mim letras e sílabas que me pertencem. Mania maldita que me revela, me põe na bandeja, me deixa ridícula, me faz tola. Gesto incontrolável que informa meus passos, dita minha temperatura, de deixa e exposta e revela-se a mim mesma. Nego-me à tentação. Recuso me a aproximar de folhas em branco, mas comecei a escrever em livros sobre palavras bem melhores que as minhas. E nessa luta desleal, perdi. E aqui estou. Alias perco sempre em todas as lutas. E perco o sono também. E na falta dele me ponho do avesso. Conto carneiros, fantasio loucuras, e busco lembranças remotas de minha infância, onde meu sono era, geralmente, tranqüilo. E todos esses pensamentos me fazem sentir uma atração detestável em descrevê-los. O sono não vem, e ponho a relembrar algo que pulsa em mim, me vem a mente sem que eu me esforce pra isso, é a sensação invasiva que sentia ao entrar em uma boneca gigante, chama-se Eva, no parque de diversão Playcenter. Alguém se lembra da Eva? Era feita de algum tipo de espuma ou borracha. Cheirava chulé, uma vez que as crianças tinham que entrar sem seus calçados. Crianças brincando, correndo e transpirando num parque de diversões. O que cheiraria se suas meias molhadas passassem as centenas numa boneca de borracha e sem ventilação interna? Chulé! Não sei se era exatamente assim, mas é assim que me recordo, e o faço em detalhes, como se houvesse penetrado Eva hoje. Penetrar era um verbo que não conhecia quando era criança e caminhava pela Eva. Ela tinha um bebê, esta era a parte mais encantadora. Todos queriam chegar no ventre de Eva e ver o feto que ficava exposto. Era emocionante e ao mesmo tempo constrangedor. Que direito tínhamos de invadir aquela boneca? Não me lembro se tinha essa consciência na época, só me lembro que tinha uma sensação estranha. Sensação essa, resultado da soma da invasão de uma mulher grávida, cheiro de chulé com o fato do nome dela ser Eva. E Eva me fazia lembrar as odiáveis aula de religião que tive do jardim de infância (isso mesmo, jardim de infância) até a terceira série do primário. E sempre rolava esse papo de Eva, e diziam “coisas não muito boas” a respeito dela. Ela era acusada por ter sido expulsa do paraíso, porque comeu uma maça. Nem sabia porque raios uma maça tinha de mal. E a Eva tinha um nenê, era tão grandiosa, tão generosa deixando que todos a conhecessem, e era tão fedida. Mas não me parecia má. E tudo isso se juntava na minha pequena e infantil mente disléxica. E talvez eu esteja aqui falando dessas memórias, e cedendo as provocações da minha alma, e permitindo que essas palavras escapem de mim, porque me pareço um pouco com aquela boneca. Não atoa ela me veio tão forte a memória, e todo aquele período tão distante e aquelas sensações tão conflitantes. Eva, a boneca que tinha o chulé incrustado em sua pele, que era culpada de ter comido a maça, que se expunha tão inadvertidamente com sua cria no ventre, que conduzia visitantes pelo seu interior, que permitia ser invadida é um pouco o que eu sou hoje. Eu e esse vício de escrever. E talvez esteja no meu ventre, também, a maior de minhas jóias, a emoção e o âmago. Sou assim, meio culpada, meio monstro, meio generosa e tolerante. Permissiva e defensiva. Penso, até hoje, que o chulé da Eva, era o jeito que ela arrumou pra gente não ficar muito tempo lá.
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2 comments:
Já pensou na possibilidade do chulé de Eva ser a arma que ela tinha para não ser esquecida? Memória olfativa é uma arma subliminar muito poderosa
E eu que nao tenho chule. Tenho lembrancas da Eva pela lembranca roubada de outras criancas. Lembro-me das minhas lembrancas de coisas mais rapidas.Ainda me indago sobre a outra Eva e a maca!
Esse vicio de escrever, nos faz bem, nos alimenta.
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