Talvez minha maior frustração foi nunca ter conseguido um grito, um gesto louco, uma explosão feroz. E quanto eu mais enlouquecia, mas indiferente você ficava. A vida chega até você e te irrita, te cutuca, te provoca, te chupa, te ofende, de demite, te isola... e você sempre na mesma posição, sempre na mesma cadeira de “traída pelo destino”, sem poder exercer sobre ele nenhuma reação. Suas amigas te ignoram, teu chefe te despede, sua irmã te desrespeita, sua “eu” (não sei como me classificar) te abandona, e você não faz NADA! Não grita, não bate, não enlouquece... não reage.
Quantas vezes a vida vai ter que te judiar, bater a sua porta e te maltratar, pra você entender o sinal, pra entender o que ela quer de você, e ela quer você mesma. Na integra, em sua totalidade. Verdadeiramente você, com seus mistérios ocultos, e com sua luz fascinante. A vida quer romper esse complexo materno, quer de você uma identidade só sua, sem que ninguém te dite a direção, quer a essência, a alma, a libido e o coração. Tudo junto. A vida quer um berro, quer amor e ódio, quer te desequilibrar e quer o equilíbrio, o yin e o yang. Porque é assim que a vida é, contraditória e perfeita em seus opostos: na alegria da vida e na tristeza da morte. Na luz do dia e nas sombras da noite. E a sua vida não é diferente, e ela tem ido atrás de você cada vez mais assustadora querendo ver a Noite que você esconde. Eu tentei, eu falei, eu gritei, eu, talvez, tenha sido um instrumento da vida, te provocando... em vão. E você o que fez? (essa sim é uma pergunta retórica). E depois, resignada de seu fracasso, me pediu perdão por algo que não fez. Não esperei de você nada que você não fosse, como me disse. Esperei de você algo que você é, mas por medo, ou outra coisa que não sei dar nome, esconde. E entendo que não fui eu que esperei isso de você, você me permitindo permear sua vida por tanto anos também queria aquela provocação toda... mas infelizmente você perdeu pra você mesma. E não foi dessa vez que a vida conseguiu o que queria de ti, sua verdadeira você. Nem dessa vez, nem quando outros lhe deram as costas em tantas diversas situações.
Redundante, mas necessário, pois tantas vezes já dito e não ouvido, a vida quer uma reação, e te provocará, de outras formas, através de outras pessoas, outros amigos, outros amantes, outros familiares, outros chefes... até você reagir. Eu espero que sua espessa fragilidade se reduza a medita que sua frágil coragem e autenticidade se dupliquem. Você não foi condenada por mim, nem pelo destino, nem me deve coisa nenhuma... você está condenada por você, ate quando quiser. E estará em divida contigo, assim sendo.
A sua falta de reação nos separa aqui, porque eu percorri um caminho ardo, eu realizei minha dor, eu vivi meus sentimentos, eu mergulhei na profundidade do meu mar, e desci mais um pouco ate o inferno. Eu me busquei, eu aceitei a provocação que a vida me fez, quando me fez amar você. E hoje, ainda que me recompondo, estou inteira, total, e falando para ouvidos que não me escutam. E lutando sozinha por uma posição, e sozinha tomando decisões difíceis, e sozinha chorando pelo fim. Sozinha e inteira, e nem o maior amor do mundo faz de você feliz se você não for completa.
Lamento. Tanto. Você foi minha melhor pior aposta. Minha melhor mais sofrida decepção. E ainda que tão, pra mim, infeliz final, você foi minha historia mais bonita, e meu amor mais profundo, na profundidade que só um grande amor pode ser.
Que Jung me perdoe o plagio, mas o homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera. Elas se mudam para a casa vizinha e poderão atear o fogo que atingirá sua casa sem que ele perceba. Se abandonarmos, deixarmos de lado, e de algum modo, esquecermo-nos excessivamente de algo, corremos o risco de vê-lo reaparecer com uma violência redobrada.